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Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

Posts com tag “Carlos Drummond de Andrade

No banco de jardim

Among the Roses Pierre Auguste Renoir - 1882

NO BANCO DE JARDIM

No Banco de jardim
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.
No banco do jardim.
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.
No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.

Carlos Drummond de Andrade (Brasil, 1902-1987)

Pintura: Pierre Auguste Renoir (França, 1841-1919)


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No banco de jardim…

No Banco de jardim
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.
No banco do jardim.
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.
No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.
Carlos Drummond de Andrade
In ‘Poesia Completa’

Drinking Coffee and Reading in the Garden. Edward Killingworth Johnson (British.1825-1923). Watercolour on paper

EDWARD KILLINGWORTH JOHNSON


A Good Book (1882). Ludovico Marchetti (Italian, 1853-1909)

LUDOVICO MARCHETTI


Alaide Banti in the garden _c.1870-Cristiano Banti (italian painter)

CRISTIANO BANTI


Daisy Weber (1907). Théo (Théophile) van Rysselberghe (Belgian, 1862–1926)Lady in the Garden - paul Peel-1889

THÉO VAN RYSSELBERGHE                                               PAUL PEEL


Woman in a Garden Julius LeBlanc Stewart - 1896Wardle_Arthur_Among_Friends

JULIUS LEBLANC STEWART                                                             ARTHUR WARDLE


Ernesto de la Cárcova (Argentina, Buenos Aires, 1867 – Argentina, Buenos Aires, 1927)-en el jardinDELAPOER DOWNING (ECOLE ANGLAISE, XIXEME SIECLE) JEUNE BEAUTE SUR UNE TERRASSE

ERNESTO DE LA CÁRCOVA                                         DELAPOER DOWNING


4-william-oliver[4]premier trouble, 1875_Alphonse Hirsch

WILLIAM OLIVER                                                                       ALPHONSE HIRSCH



Trio: No meio do caminho…

Brooks_Thomas_The_Stepping_Stones_2

THOMAS BROOKS (Inglaterra, 1818-1891)


Stepping Stones, Emile Eisman-Semenowsky

EMILE EISMAN SEMENOWSKY (Pintor franco-polonês – 1857-1911)


très galant - Cesare Auguste Detti

CESARE AUGUSTE DETTI (Itália, 1847-1914)


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade



Casa arrumada…

Francis_Coates_Jones_(American_artist,_18571932)_Flowers_in_the_Window

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas,
que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte
e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Francis Coates Jones (EUA, 1857-1932)


Foi-se a Copa?

copa

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Carlos Drummond de Andrade

Desenho: Regina Mendonça


Dois sonhos

Ralph Hedley - Cat in Cottage Window

O gato dorme a tarde inteira no jardim.

Sonha (?) tigres enviesados a chamá-lo

para a fraternidade no jardim.

Gato sonhando, talvez sonho de homem?

Continua dormindo, enquanto ignoro

a natureza e o limite do seu sonho

e por minha vez

também me sonho (inveja) gato no jardim.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Ralph Hedley (pintor inglês – 1848-1913)


Viver não doi…

COP071088301  01

VIVER NÃO DOI

Definitivo, como tudo que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
Mas das coisas que foram sonhadas
E não se cumpriram.
 
Por que sofremos tanto por amor ?
O certo seria a gente não sofrer,
Apenas agradecer por termos conhecido
Uma pessoa tão bacana,
Que gerou em nós um sentimento intenso
E que nos fez companhia por um tempo razoável,
Um tempo feliz.
 
Sofremos por quê?
Porque automáticamente esquecemos
O que foi desfrutado e passamos a sofrer
Pelas nossas projeções irrealizadas,
Por todas as cidades que gostaríamos
De ter conhecido ao lado de nosso amor
E não conhecemos,
Por todos os filhos que
Gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos,
Por todos os shows e livros e silêncios
Que gostaríamos de ter compartilhado,
E não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados
Pela eternidade.
 
Sofremos não porque
Nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
Mas por todas as horas livres
Que deixamos de ter para ir ao cinema
Para conversar com um amigo,
Para nada, para namorar.
 
Sofremos não porque nossa mãe
É impaciente conosco,
Mas por todos os momentos em que
Poderíamos estar confidenciando a ela
Nossas mais profundas angústias
Se ela estivesse interessada
Em nos compreender.
 
Sofremos não porque nosso time perdeu,
Mas pela euforia sufocada.
 
Sofremos não porque envelhecemos,
Mas porque o futuro está sendo
Confiscado de nós,
Impedindo assim que mil aventuras
Nos aconteçam,
Todas aquelas com as quais sonhamos e
Nunca chegamos a experimentar.
 
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
 
A cada dia que vivo,
Mais me convenço de que o
Desperdício da vida
Está no amor que não damos,
Nas forças que não usamos,
Na prudência egoística que nada arrisca,
E que, esquivando-se do sofrimento,
Perdemos também a felicidade.
 
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.
Fé é colocar seu sonho à prova!
 
Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Franz Dvorak (Pintor austríaco, 1862-1927)



Um pouco de poesia…

Puvis-de-Chavannes-Pierre-Meditation

Poema

É sempre nos meus pulos o limite.

É sempre nos meus lábios a estampilha

É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.

Sempre dentro de mim meu inimigo.

E sempre no meu sempre a mesma ausência.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Puvis de Chavannes


Moonlight Night -1880- Ivan Kramskoy (russian painter)

Canção do Sonho Acabado

Já tive a rosa do amor

– rubra rosa, sem pudor.

Cobicei, cheirei, colhi.

Mas ela despetalou

E outra igual, nunca mais vi.

Já vivi mil aventuras,

Me embriaguei de alegria!

Mas os risos da ventura,

No limiar da loucura,

Se tornaram fantasia…

Já almejei felicidade,

Mãos dadas, fraternidade,

Um ideal sem fronteiras

– utopia! Voou ligeira,

Nas asas da liberdade.

Desejei viver. Demais!

Segurar a juventude,

Prender o tempo na mão,

Plantar o lírio da paz!

Mas nem mesmo isto eu pude:

Tentei, porém nada fiz…

Muito, da vida, eu já quis.

Já quis… mas não quero mais…

Helenita Scherma

Pintura: Ivan Kramskoi


AlfonsoSimonetti_ancor_non_torna

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

Eugénio de Andrade

Pintura: Alfonso Simonetti