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Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

Posts com tag “Poetas brasileiros

Escolha

CharlesCourtneyCurran9J

Apesar do medo

escolho a ousadia.

Ao conforto das algemas, prefiro

a dura liberdade.

Vôo com meu par de asas tortas,

sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão

de realidade:

meu ímpeto explode o ponto,

arqueia a linha, traça contornos

para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:

eu

quero o delírio.

Lya Luft

in Pra não dizer adeus

Pintura: Charles Courtney Curran (EUA, 1861-1942)


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Primavera – Olavo Bilac

Spring by Ignacio Pinazo Camarlench (spanish painter)

PRIMAVERA
Ah! quem nos dera que isso, como outrora,
inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudessemos agora
ver o desabrochar da primavera!
Saíamos com os pássaros e a aurora,
e, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"
E esse corpo de rosa recendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço….
A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera…E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço!
Olavo Bilac

Ilustração: Ignacio Pinazo (Espanha, 1849-1916)



Canção da primavera – Mario Quintana

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CANÇÃO DA PRIMAVERA
Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

(Mario Quintana; Canções, 1946)

Ilustração: Placa de porcelana KPM



Soneto

card 1911
Canta teu riso esplêndido sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
– Citara suave dos apaixonados,
Sonorizando os sonhos já passados,
Cantando sempre em trínula volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos,
Quando, úmido de beijos em ressábios
Teu riso esponta, despertando sonhos…

Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!

Augusto dos Anjos


É primavera!

James Tissot (French, 1836-1902)_crysanthemus, 1874

Eu sou a Primavera!
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu!
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.
Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel:
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.
Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a Primavera,
A flor das estações!

Poema infantil de Olavo Bilac

Pintura: James Tissot (pintor francês, 1836-1902)


No banco de jardim…

No Banco de jardim
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.
No banco do jardim.
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.
No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.
Carlos Drummond de Andrade
In ‘Poesia Completa’

Drinking Coffee and Reading in the Garden. Edward Killingworth Johnson (British.1825-1923). Watercolour on paper

EDWARD KILLINGWORTH JOHNSON


A Good Book (1882). Ludovico Marchetti (Italian, 1853-1909)

LUDOVICO MARCHETTI


Alaide Banti in the garden _c.1870-Cristiano Banti (italian painter)

CRISTIANO BANTI


Daisy Weber (1907). Théo (Théophile) van Rysselberghe (Belgian, 1862–1926)Lady in the Garden - paul Peel-1889

THÉO VAN RYSSELBERGHE                                               PAUL PEEL


Woman in a Garden Julius LeBlanc Stewart - 1896Wardle_Arthur_Among_Friends

JULIUS LEBLANC STEWART                                                             ARTHUR WARDLE


Ernesto de la Cárcova (Argentina, Buenos Aires, 1867 – Argentina, Buenos Aires, 1927)-en el jardinDELAPOER DOWNING (ECOLE ANGLAISE, XIXEME SIECLE) JEUNE BEAUTE SUR UNE TERRASSE

ERNESTO DE LA CÁRCOVA                                         DELAPOER DOWNING


4-william-oliver[4]premier trouble, 1875_Alphonse Hirsch

WILLIAM OLIVER                                                                       ALPHONSE HIRSCH



flowering roses_Peter Tom-Petersen

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…

Mário Quintana

Pintura: Peter Tom-Petersen (pintor dinamarquês, 1861-1926)


Natal dos poetas brasileiros

698px-Bartolomé_Esteban_Murillo_-_The_Nativity_-_Google_Art_Project

O Natal, as cenas de presépio, inspiraram muitos poetas. Recordo-me de poetas brasileiros que cantaram o Natal com ternura, imensa nostalgia, infinita melancolia e alegria simples. Alguns, de modo genuinamanete brasileiro.
Quem não se emociona, mesmo em tempo tão materialista como o de hoje, ao ouvir um coral cantando a brasileiríssima canção de Assis Valente ?

"Anoiteceu
O sino gemeu
A gente se pôs
feliz a cantar.
Papai Noel vê se você tem
a felicidade pra você me dar.
Já faz tempo que pedi
mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já esqueceu
ou então felicidade
é brinquedo que não tem".

Vinícius de Morais, com sua sensiblidade, em seu "Poema de Natal", nota:

Não há muito que dizer;
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os vossos corações
Se deixem, graves e simples."

E Manuel Bandeira, o maior poeta de sua geração, cuja poesia dá felicidade à gente, faz a gente gostar de viver, soube cantar, como nenhum outro, o Natal, com ternura e inocência. Leiam:

Penso no Natal. No seu Natal. Para a Bondade
A minhalma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.

Ó minha amiga, aceita a carícia filial
Da minhalma a teus pés humilhada de rastos,
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos…
Ampara minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais que humana – pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus…"

Se a cena do nascimento de Jesus comove e nos diz que a alegria se faz com pouca coisa, o Natal desses brasileiros também nos emociona e mostra nosso destino, paz e simplicidade.

(Plinio Mendonça)

Pintura: Bartolomé Esteban Murillo (Espanha, 1617-1682)