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Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

POESIAS

Sermão da planície

jogador

Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade.
Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.
Bem-aventurados os que não têm a paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.
Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.
Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.
Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.
Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.
Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e assistentes ocasionais de peladas.
Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.
Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.
Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemoratório.
Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.
Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.
Bem-aventurados os que, entre a bola e o botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.
Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.
Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.
(Carlos Drumond de Andrade)


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Amar é uma arte!

Sweets To The Sweet-Blair Leighton

EDMUND BLAIR-LEIGHTON


Brunery_Francois_The_ProposalFlorent Willems (1823 - 1905) - The proposal

FRANÇOIS BRUNERY                                                                                          FLORENT WILLEMS


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CARL SCHWENINGER


a lovers story-CARL ADOLF GUGEL (1820 – 1885, GERMAN)Suitor Bearing Gifts - Pio Ricci

CARL ADOLF GUGEL                                                                                                   PIO RICCI


Gabriele Castagnola   Faust and MargueriteGiuseppe Ciaranfi (1838-1902) A declaration of love

GABRIELE CASTAGNOLA                                                                           GIUSEPPE CIARANFI


william-powell-frith-the-proposal

WILLIAM POWELL FRITH


2.HARALD SLOTT-MOLLER (DANISH, 1864-1937)

HARALD SLOTT-MOLLER


love (2)

No azul do teu peito
ensolarado
há espelhos de cristal
multiplicando imagens.

Emergem risos
lágrimas
promessas
olhares infantis
perdidamente
infinitamente
apaixonados
adolescentes.

A vida renasce
das tuas mãos
trêmulas
entrelaçadas
– há muito tempo entrelaçadas-
Reencontradas.

No espaço secreto
da memória,
nosso retrato
– De corpo inteiro –
É o quadro mais bonito
que se pode iluminar.

Anna Maria Feitosa



Noutros lugares…

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NOUTROS LUGARES
Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.

Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.

As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.
 
O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.
Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.
 
Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

(Jorge de Sena)

Foto: Praia de Itaguaçu – Florianópolis, SC, Brasil

por Pedro Mendonça



Outono

John William Godward - AutumnGeorge_Henry_Boughton-Autumn

JOHN WILLIAM GODWARD                                                                              GEORGE HENRY BOUGHTON


cesare-saccaggi-italian-painter-autumnAutumn by Emile Eisman Semenowsky

CESARE SACCAGGI                                                                        ÉMILE EISMAN SEMENOWSKY


O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Mario Quintana



Contemplo o lago mudo…

La Stretta di Lavena, Lago di Lugano - 1932- Oreste Albertini (italian painter)

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece. 
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Fernando Pessoa

Pintura: “La stretta di Lavena, Lago de Lugano” – 1932 –

Oreste Albertini (Itália, 1887-1953)


Galeria: Além-mar…

Johann Victor Krämer (1861-1949) Moonrise in Taormina

JOHANN VICTOR KRAMER


Lawrence Alma-Tadema - 'Her eyes are with her thoughts and they are far away'

SIR LAWRENCE ALMA-TADEMA


Miranda-1875-John-William-Waterhouse-1849-1917

JOHN WILLIAM WATERHOUSE


midsummer´s Eve by Harald Slott-Møller - 1904Harald Slott-Moller (Danish, 1864-1937)

HARALD SLOTT-MOLLER


August Hagborg-

AUGUST HAGBORG


EDWARD CUCUEL (german-american 1879-1954) - EAST WINDGarrido, Eduardo Leon-ELÉGANTE AU BORD DE LA MER

EDWARD CUCUEL                                                             EDUARDO LEON GARRIDO


pensive-alfred stevensLooking at the Sea - Alfred Stevens (belgian painter)

ALFRED STEVENS


the sea breeze by george henry boughtonEugen von Blaas (Austrian, 1843-1931) Anticipation. 1911

GEORGE HENRY BOUGHTON                                                               EUGEN VON BLAAS


Girl Looking Out to Sea - Albert Chevallier Tayler-1918hermann seeger

ALBERT CHEVALLLIER TAYLER                                                                           HERMANN SEEGER


Canção do mar aberto

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.
Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!…
Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar
Armando Côrtes-Rodrigues, in ‘Planície Inquieta’



Felicidade

william menzler

“Felicidade se acha em horinhas de descuido”.

Guimarães Rosa

Pintura: Wilhelm Menzler (Alemanha, 1846-1926)


Nossas marcas no tempo

the old tea-caddy_Charles Spencelayh

NOSSAS MARCAS NO TEMPO…

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(Passagem das Horas – Poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)

Pintura: Charles Spencelayh (Inglaterra, 1865-1958)