Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

POESIAS

Embalo da Canção

Karl Kaufmann (1843 - 1902_5) - A Pensive Beauty

 

EMBALO DA CANÇÃO

Que a voz adormeça
que cante a canção!
Nem o céu floresça
nem floresça o chão.
(Só – minha cabeça,
só – meu coração.
Solidão)
Que não alvoreça
nova ocasião!
Que o tempo se esqueça
de recordação!
(Nem minha cabeça,
nem meu coração.
Solidão!)

Cecília Meireles,
in Vaga Música

Pintura: Karl Kaufmann

(Neuplachowitz, Áustria, 1843 – Viena, Áustria, 27 de abril de 1905)

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É primavera!

James Tissot (French, 1836-1902)_crysanthemus, 1874

Eu sou a Primavera!
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu!
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.
Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel:
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.
Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a Primavera,
A flor das estações!

Poema infantil de Olavo Bilac

Pintura: James Tissot (pintor francês, 1836-1902)


Estátua

garden1

Jardim da tarde divina,
por onde íamos passeando
saudade e melancolia.
Toda a gente me falava.
E nasceu minha alegria
do que não me disse nada.
O azul acabava-se, e era
céu, toda a sua cabeça,
poderosamente bela.
Nos seus olhos sem pupilas
meus próprios versos estavam
como memórias escritas.
E na curva de seu lábio,
o ar, em música transido,
perguntava por seu hálito.
Ah, como a tarde divina
foi velando suas flores,
água, areia, relva fria …
Nítida, redonda lua
prolongou seu corpo imóvel
numa perfeição mais pura.
Fez parecer que sorria
seu rosto para meu rosto:
divindade quase em vida.
Minha cegueira, em seus olhos
minha voz entre seus lábios,
e minha dor em seus modos.
Minha forma no seu plinto,
livre de assuntos humanos.
De longe. Sorrindo.
Cecília Meireles
in Mar Absoluto


No banco de jardim…

No Banco de jardim
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.
No banco do jardim.
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.
No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.
Carlos Drummond de Andrade
In ‘Poesia Completa’

Drinking Coffee and Reading in the Garden. Edward Killingworth Johnson (British.1825-1923). Watercolour on paper

EDWARD KILLINGWORTH JOHNSON


A Good Book (1882). Ludovico Marchetti (Italian, 1853-1909)

LUDOVICO MARCHETTI


Alaide Banti in the garden _c.1870-Cristiano Banti (italian painter)

CRISTIANO BANTI


Daisy Weber (1907). Théo (Théophile) van Rysselberghe (Belgian, 1862–1926)Lady in the Garden - paul Peel-1889

THÉO VAN RYSSELBERGHE                                               PAUL PEEL


Woman in a Garden Julius LeBlanc Stewart - 1896Wardle_Arthur_Among_Friends

JULIUS LEBLANC STEWART                                                             ARTHUR WARDLE


Ernesto de la Cárcova (Argentina, Buenos Aires, 1867 – Argentina, Buenos Aires, 1927)-en el jardinDELAPOER DOWNING (ECOLE ANGLAISE, XIXEME SIECLE) JEUNE BEAUTE SUR UNE TERRASSE

ERNESTO DE LA CÁRCOVA                                         DELAPOER DOWNING


4-william-oliver[4]premier trouble, 1875_Alphonse Hirsch

WILLIAM OLIVER                                                                       ALPHONSE HIRSCH



Para além da curva da estrada

Village life on a nice summer day, Onsbjerg, Samso_Peder Mork Monsted

Para além da curva da estrada
talvez haja um poço, e talvez um castelo,
e talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
só olho para a estrada antes da curva,
porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
há a estrada sem curva nenhuma.
Alberto Caeiro, em "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa

Pintura: Peder Mork Monsted
(Pintor dinamarquês, 1859-1941)


flowering roses_Peter Tom-Petersen

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…

Mário Quintana

Pintura: Peter Tom-Petersen (pintor dinamarquês, 1861-1926)


5.peter-ellenshaw

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…

Mário Quintana

Pintura: Peter Ellenshaw (Reino Unido, 1913-2007)


É outono!…

Autumn in Gloucester - 1931 - Mathias J. Alten (american painter)

MATHIAS J. ALDEN


Jose_malhoa_outonoAutumn Day Sokolniki -1879 - Isaac Levitan (russian painter)

JOSE MALHOA                                                                             ISAAC LEVITAN


autumn-thomas-benjamin-kennington-Autumn Magic - 1912 - Edward Cucuel (american painter)

THOMAS BENJAMIN KENNINGTON                                                            EDWARD CUCUEL


Autumn by Emile Eisman Semenowsky

EMILE EISMAN SEMENOWSKY


autumn glory

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Mario Quintana