Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

POESIAS

Soneto

card 1911
Canta teu riso esplêndido sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
– Citara suave dos apaixonados,
Sonorizando os sonhos já passados,
Cantando sempre em trínula volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos,
Quando, úmido de beijos em ressábios
Teu riso esponta, despertando sonhos…

Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!

Augusto dos Anjos


Chove…

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Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme.
Quando a alma é viúva

Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece

Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…
Não paira vento, não há céu que eu sinta.

Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa


card-antiq (2)

Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um voo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh’alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.

Fernando Pessoa


helene beland

Aqui nessa pedra, alguém sentou para olhar o mar

O mar não parou para ser olhado

Foi mar pra tudo que é lado.

Paulo Leminski

Pintura: Hélène Béland (artista canadense, nascida em 1949)


Trovas de muito amor…

2.Jules Girardet (french, 1856-1938)

Trovas de muito amor

Amo e conheço.
Eis porque sou amante
e vos mereço.

De entendimento
Vivo e padeço.

Vossas carências
Sei-as de cor.
E o desvario
Na vossa ausência
Sei-o melhor

Tendes comigo
Tais dependências
Mas eu convosco
Tantas ardências
Que só me resta
O amar antigo:
Não sei dizer-vos
Amor, amigo
Mas é nos versos
Que mais vos sinto
E na linguagem
Desta canção

Sei que não minto.

HILDA HILST

Pintura: Jules Girardet (França, 1856-1938)


Amar e ser amado…

Amar e Ser Amadocarl schweninger.9

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano,
Beijar teus labios em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante, amado
Como um anjo feliz… que pensamento!?
Castro Alves

Pintura: Carl Schweninger


Para além da curva da estrada

Jules Alexandre GAMBA de PREYDOUR (Paris, 1846 -) Jeune fille effeuillant une marguerite

Para além da curva da estrada
talvez haja um poço, e talvez um castelo,
e talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
só olho para a estrada antes da curva,
porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
há a estrada sem curva nenhuma.
Alberto Caeiro
Heterônimo de Fernando Pessoa)
em "Poemas Inconjuntos"
Pintura: Jules Alexandre Gamba de Preydour (Paris, França, 1846 – ?)


O tempo existe…

Edward Cucuel (american, 1875-1951)-woman with a parasol_768x945

O TEMPO EXISTE
Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
Existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.
Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!
Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.
Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.
Francisco Miguel de Moura
de Sonetos Escolhidos

Pintura: Edward Cucuel (pintor americano, 1875-1951)