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Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

Posts com tag “Cecília Meireles

CANÇÃO EXCÊNTRICA – Cecília Meireles

Puvis-de-Chavannes-Pierre-Meditation

CANÇÃO EXCÊNTRICA

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.

Cecília Meireles

Pintura: Puvis de Chavannes (França, 1824-1898)


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Embalo da Canção

vlaho-bukovac-daydreams2

EMBALO DA CANÇÃO
Que a voz adormeça
que cante a canção!
Nem o céu floresça
nem floresça o chão.
(Só – minha cabeça,
só – meu coração.
Solidão)
Que não alvoreça
nova ocasião!
Que o tempo se esqueça
de recordação!
(Nem minha cabeça,
nem meu coração.
Solidão!)
Cecília Meireles,
in Vaga Música

Pintura: Vlaho Bukovac (Cavtat, Croácia, 4 de julho de 1855 – Praga, República Checa, 23 de abril de 1922)


Embalo da Canção

Karl Kaufmann (1843 - 1902_5) - A Pensive Beauty

 

EMBALO DA CANÇÃO

Que a voz adormeça
que cante a canção!
Nem o céu floresça
nem floresça o chão.
(Só – minha cabeça,
só – meu coração.
Solidão)
Que não alvoreça
nova ocasião!
Que o tempo se esqueça
de recordação!
(Nem minha cabeça,
nem meu coração.
Solidão!)

Cecília Meireles,
in Vaga Música

Pintura: Karl Kaufmann

(Neuplachowitz, Áustria, 1843 – Viena, Áustria, 27 de abril de 1905)

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Estátua

garden1

Jardim da tarde divina,
por onde íamos passeando
saudade e melancolia.
Toda a gente me falava.
E nasceu minha alegria
do que não me disse nada.
O azul acabava-se, e era
céu, toda a sua cabeça,
poderosamente bela.
Nos seus olhos sem pupilas
meus próprios versos estavam
como memórias escritas.
E na curva de seu lábio,
o ar, em música transido,
perguntava por seu hálito.
Ah, como a tarde divina
foi velando suas flores,
água, areia, relva fria …
Nítida, redonda lua
prolongou seu corpo imóvel
numa perfeição mais pura.
Fez parecer que sorria
seu rosto para meu rosto:
divindade quase em vida.
Minha cegueira, em seus olhos
minha voz entre seus lábios,
e minha dor em seus modos.
Minha forma no seu plinto,
livre de assuntos humanos.
De longe. Sorrindo.
Cecília Meireles
in Mar Absoluto


Inscrição

Summer-Duffy Sheridan

Inscrição

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar
E por isso levito.
É bom deixar
Um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.

Cecília Meireles

Pintura: Duffy Sheridan (EUA, 1947 -)


Três momentos: Cecília Meireles

cc curran 1922

CANÇÃO EXCÊNTRICA

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço,
– do que faço, arrependida.

Pintura: Charles Courtney Curran (EUA, 1861-1942)


William Henry Margetson (british, 1861-1940)-castles of sand -1898

APRESENTAÇÃO

Aqui está minha vida – esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Pintura: William Henry Margetson (Inglaterra, 1861-1940)


MaxfieldParrish-reveries
REINVENÇÃO

A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo… – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança…
Só – no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só – na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Ilustração: Maxfield Parrish (EUA, 1870 – 1966)


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Cecília Meireles, escritora. (Foto da Folhapress) (Foto: Folhapress)

Cecília Benevides de Carvalho Meireles

(Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964)
Poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira.



Sonhei um sonho…

autumn-thomas-benjamin-kennington-

Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procura um sonho.

Cecília Meirelles

Pintura: “Outono” – Thomas Benjamin Kennington (Inglaterra, 1856-1916)


Trio: “Sonhei um sonho”…

Sweet Repose, Valentine Cameron Prinsep

VALENTINE CAMERON PRINSEP


Edoardo Tofano-giovane donna in un interno-1875

EDOARDO TOFANO


After a night out, Henri Joseph Thomas. (1878 - 1972)

HENRI JOSEPH THOMAS


SONHEI UM SONHO

Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procura um sonho.

(Cecília Meirelles)