Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

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Canção amiga

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Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Friedrich Von Amerling


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Se a um espelho e depois a outro,

pergunto se tudo vai bem

não é por vaidade:

procuro o rosto que tinha

antes do mundo o transformar.

William Butler Yeats (1865-1939)

Pintura: William Powell Frith


Antes de amar-te…

Hennessy, William-

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

(Pablo Neruda)

Pintura: William Hennessy


Pintura…

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Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.

Ferreira Gullar

Pintura de Karol Bak


É outono !

Hans Andersen Brendekilde (1857-1942)

OUTONO

Estação das névoas e da plena fecundidade
amiga íntima do sol que amadurece;
e com quem tramas benzer e carregar
de frutos as vinhas que rodeiam os beirais de palha.
(John Keats)

Pintura de Hans Andersen Brendekilde

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Se me é negado o amor…

Repin

Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?

Rabindranath Tagore

Pintura: Ilya Repin


A cavalgada–Raimundo Correia

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A lua banha a solitária estrada…
Silêncio!… mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.
São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada…
E o bosque estala, move-se, estremece…
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha…
E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha… 
 
Raimundo Correia  (1859 – 1911)

Pintura de Ivan Kramskói

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Faça chuva ou faça sol… 8

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Será num claro dia de verão;
raios de sol – meu cúmplice celeste –
sobre a seda e o cetim da tua veste
mais bela a tua beleza ainda farão.

O céu, como dossel na azul esfera,
ondulará fremente os folhos cálidos
por sobre os nossos rostos, muito pálidos
pela emoção feliz e pela espera.

Doces ares da noite, então chegados,
hão de afagar teus véus alegremente
e há de o olhar das estrelas, complacente,
sorrir para os amantes esposados.

Paul Verlaine (1844-1896)


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GYULA BENCZUR


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JOHN GEORGE BROWN


William John Hennessy (1839-1917)-(inglês)

WILLIAM JOHN HENNESSY


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GEORG KUGLER                                                                       BELISARIO GIOJA


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EDMUND BLAIR-LEIGHTON


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PAULINE PALMER


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JAMES TISSOT


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FERNAND TOUSSAINT


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LOUIS MARIE DE SCHRYVER



O gênio da humanidade…

Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d´alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu.

Ergo o braço, aceno aos ares,
E o céu se azulando vai;
Estendo a mão sobre os mares,
E os mares dizem: passai!…
Satisfazendo ao anelo
Do bom, do grande e do belo,
Todas as formas tomei:
Com Homero fui poeta,
Com Isaías profeta,
Com Alexandre fui rei.

Ouvi-me: venho de longe,
Sou guerreiro e sou pastor;
As minhas barbas de monge
Têm seis mil anos de dor:
Entrei por todas as portas
Das grandes cidades mortas,
Aos bafos do meu corcel,
E ainda sinto os ressábios
Dos beijos que dei nos lábios
Da prostituta Babel.

E vi Pentapólis nua,
Que não corava de mim,
Dizendo ao sol: eu sou tua,
Beija-me… Queima-me assim!
E dentro havia risadas
De cinco irmãs abraçadas
Em voluptuoso furor…
Ânsias de febre e loucura,
Chiando em polpas de alvura,
Lábios em brasas de amor!…

Travei-me em lutas imensas,
Por vezes, cansado e nu,
Gritei ao céu: em que pensas?
Ao mar: de que choras tu?
Caminho… e tudo que faço
Derramo sobre o regaço
Da história, que é minha irmã:
Chamem-me Byron ou Goethe,
Na fronte do meu ginete
Brilha a estrela da manhã.

E no meu canto solene
Vibra a ira do Senhor:
Na vida, nesse perene
Crepúsculo interior,
O ímpio diz: anoitece!
O justo diz: amanhece!
Vão ambos na sua fé…
E às tempestades que abalam
As crenças d´alma, que estalam,
Só eu resisto de pé!…

De Deus ao imenso ouvido
A Humanidade é um tropel,
E a natureza um ruído
Das abelhas com seu mel,
Das flores com seu orvalho,
Dos moços com seu trabalho
De santa e nobre ambição,
De pensamentos que voam,
De gritos d´alma, que ecoam
No fundo do coração!..

Tobias Barreto


Pintura: Leitoras – 10

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PALAVRA MÁGICA

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
nós gritamos: sim! ao eterno.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura de Albert Lynch


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CHARLES JAMES LEWIS HASTINGS


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MARIE SPARTALLI STILLMAN                                                                          STUART G. DAVIS


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ALMEIDA JÚNIOR


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WYBRAND HENDRIKS                                                                                 WILLIAM OLIVER


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GEORGE WINCHESTER                                                                     GEORGES CROEGAERT


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HENRY BOUVET


FelixValloton

FELIX VALLOTON


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LUDOVICO MARCHETTI


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JOHN CALLCOTT HORSLEY


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WALTER FIRLE


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FRIEDRICH VON AMERLING



Amar é uma arte !–Galeria 13

SONETO DE INSPIRAÇÃO

Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.

Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.

Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar – soubesse eu ver

Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.

Vinícius de Morais


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JOSEPH CARAUD


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FEDERICO ANDREOTTI


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ROBERT PAYTON REID                                                                                  PANCRAZ KOERLE


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ÍTALO NUNES-VAIS                                                                               CARL JOHANN SPIELTER


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GIACOMO FAVRETTO


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JULES GIRARDET


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FRÉDÉRIC SOULACROIX



Música na pintura – 6

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Divina Música!
Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
E do Amor.
Sonho do coração humano,
Fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
E desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
Confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
E dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
Das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
Que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
Fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
Depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
E a ouvir com os corações.

(Gibran Khalil Gibran)


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VITTORIO REGGIANINI


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JULIEN VRIENDT                                                                                               FRANZ XAVER WOLF


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HANS HOLTZBECHER


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OSCAR PEREIRA DA SILVA                                                                                                    OTTO PILTZ


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BERNARD LOUIS BORIONE


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ADRIANO CECCHI


Soulacroix, Charles Joseph Frederic (1825-1879) - The Serenade

CHARLES JOSEPH FREDERIC SOULACROIX


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EUGENIO ZAMPIGHI



Que é simpatia ?

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Simpatia – é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.
Simpatia – são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.
São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.
Simpatia – meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d’agosto
É o que m’inspira teu rosto…
– Simpatia – é quase amor!

Casimiro de Abreu

Pintura de Eugene-de-Blaas (ou Eugen Von Blaas)


Poema que aconteceu…

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Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura de Filippo Palizzi


O mundo é grande…

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O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade


Poesia…

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Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura de George Goodwin Kilburne


A arte de amar…

1909

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira


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Sábado foi e caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.
Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado…
Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio
E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
tu, que nunca serás de todo meu.

Alfonsina Storni

Pintura: Francesco Hayez


Hora…

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta  -  por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner


Pintura: As cartas (4)

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DANIEL HERNANDEZ MORILLO                                                                       PAOLO BEDINI


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ALFRED SEIFERT                                                                                              JOHANNES VERMEER


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CARL ZEWY                                                                                                 ADOLF EBERLE


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AUGUST MULLER                                                                                           EDOUARD FREDERIC WILHELM  RICHTER


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BERNARD LOUIS BORIONE                                                                                GEORGES CROEGAERT


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VITTORIO REGGIANINI                                                                      THOMAS BENJAMIN KENNINGTON


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LADISLAU WLADISLAW VON CZACHÓRSKI


ESCREVE-ME…

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então…brandas…serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…

Florbela Espanca



A balada da água do mar…

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O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

– Que vendes, ó jovem turva,
com os seios ao ar?

– Vendo, senhor, a água
dos mares.

– Que levas, ó negro jovem,
mesclado com teu sangue?

– Levo, senhor, a água
dos mares.

– Essas lágrimas salobres
de onde vêm, mãe?

– Choro, senhor, a água
dos mares.

– Coração, e esta amargura
séria, onde nasce?

– Amarga muito a água
dos mares!

O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

Federico García Lorca


Venturosa de sonhar-te…

 

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Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)

-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.

-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!

Cecília Meireles

Tela de Alfonso Simonetti


Suavíssima…

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Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma …
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .
E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .
Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Cecília Meirelles

Pintura de Harold Brett

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Sonhando…

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É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d’alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora… Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa

Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!…

Florbela Espanca

Pintura de Sandor Liezen Meyer