Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

Posts com tag “Mario Quintana

RORBYEMartinus_ViewfromtheArtistsWindow

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas cotidianas…
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…
Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana

Pintura: Martinus Rorbye (Dinamarca, 1803-1848)


A verdadeira arte de viajar…

the customs by Antonio Mancini - 1877Evert Jan Boks (dutch-belgian 1838-1914) Going into the world

ANTONIO MANCINI                                                                                              EVERT JAN BOKS


A Verdadeira Arte de Viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana



BRASIL DE LUTO…

IvanKramskoy - Christ in the desert

E quando um acidentado acorda, perplexo, no outro mundo,
e indaga dos anjos que horas são,
muito mais perplexos ficam os anjos…

Mario Quintana

(Alegrete, RS-1906- Porto Alegre, RS -1994)

Pintura de Ivan Kramskoy


Uma certa melancolia… – 4

PhilipPerold

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

Foto: Philip Perold 


Distant Thoughts (1886) by Thomas Francis Dicksee (1819-1895)

THOMAS FRANCIS DICKSEE


Alfred Fowler Patten (British, 1826 - c.1888)-The child and the star-1882OrestKiprensky2

ALFRED FOWLER PATTEN                                                                                     OREST KIPRENSKY


09.alfred stevens_melancolie

ALFRED STEVENS


Mignon-1869Lenoir,_Charles-Amable_-_Pensive

WILLIAM-ADOLPHE BOUGUEREAU                                                                            CHARLES-AMABLE LENOIR


A Quiet Moment_DelphinEnjolrasamarilla-frederic-leighton

DELPHIN ENJOLRAS                                                                                          LORD FREDERICK LEIGHTON



…O luar…

JorgeGarcia1

…O luar é a luz do sol que está dormindo…

Mario Quintana


Canção do dia de sempre…

627697

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mario Quintana


O anjo da escada…

Chasseriau_Theodore_The_Angel_1840

O anjo da escada
Na volta da escada,
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando clamando…
Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

Mario Quintana


Se eu fosse um padre…

sergey-braga-

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
… a um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!

Mario Quintana