Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

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Trio: Gaetano Bellei (Itália)

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Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme.
Quando a alma é viúva

Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece

Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…
Não paira vento, não há céu que eu sinta.

Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa


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GAETANO BELLEI
(Modena, Itália, 22 de janeiro de 1857 – Modena, Itália, março de 1922)


Prefiro rosas, meu amor, à pátria…

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Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

Pintura: Edward Charles Barnes (Inglaterra, 1830- 1882)


Eros e Psiquê

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EROS E PSIQUÊ

      Conta à lenda que dormia
      uma princesa encantada
      a quem só despertaria
      um Infante, que viria
      de além do muro da estrada.
      Ele tinha que, tentado
      vencer o mal e o bem
      antes que, já libertado
      deixasse o caminho errado
      por que à Princesa vem.
      A princesa adormecida
      se espera, dormindo espera
      sonha em morte a sua vida
      e orna-lhe a fonte, esquecida
      uma grinalda de hera.
      Longe o Infante, esforçado
      sem saber que intuito tem
      rompe o caminho fadado
      ele dela é ignorado
      ela pra ele é ninguém.
      Mas cada um cumpre o Destino
      ela dormindo encantada
      ele buscando-a sem tino
      pelo processo divino
      que faz existir a estrada.
      E se bem que seja obscuro
      tudo pela estrada afora
      e falso, ele vem seguro
      e, vencendo estrada e muro,
      chega onde, em sono, ela mora.
      E, inda tonto com o que houvera
      à cabeça, em maresia,
      ergue a mão, e encontra a hera
      e vê, que ele mesmo era
      a Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

PINTURA: Guillaume Seignac (França, 1870-1924)


Entre o luar e o arvoredo

Johann Peter hasenclever_Die sentimentale_19 th century

Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

Fernando Pessoa

Pintura: Johann Peter Hasenclever (Alemanha, 1810-1853)


“Dawn”…

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EDMUND HODGSON SMART (Inglaterra, 1873 – EUA, 1942)


Deve chamar-se tristeza 
Isto que não sei que seja 
Que me inquieta sem surpresa 
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza – mas aquela

Que nasce de conhecer

Que ao longe está uma estrela

E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho. 
Tudo mais é tudo só. 
E eu deixo ir o pó que apanho 
De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa


Entre o luar e o arvoredo

Johann Peter hasenclever_Die sentimentale_19 th century
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

Fernando Pessoa

Pintura: Johann Peter Hasenclever (Alemanha, 1810-1853)


Tempos de criança – Galeria 25

Olha-me rindo uma criança

Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca bastou.
Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que e nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.

Fernando Pessoa

Johan 'Mari' Henri ten Kate - 1831 - 1910-drie-kinderen-en-een-hondje-met-een-mutsje-dat-in-het-water-dreef

JOHAN “MARI” HENRI TEN KATE


Arthur John Elsley 1862-1952 Home Team

ARTHUR JOHN ELSLEY


John Wells Smith - PlaytimeFrederick Arthur Bridgman (1847-1928) Playing Pony

JOHN WELLS SMITH                                                                        FREDERICK ARTHUR BRIDGMAN


Giulio del Torre_Playing ChildrenKarlRaupp_feeding_the_ducklings

GIULIO DEL TORRE                                                                                  KARL RAUPP


Anderson_Sophie_the_Bonfire

SOPHIE ANDERSON



Faça chuva ou faça sol… Galeria 29

Paul-Gustave Fischer - After the Swim at Hornbaek Beach, Denmark

PAUL-GUSTAVE FISCHER


LOUIS MARIE DE SCHRYVER


Linnie Watt (1875-1908) - A Woodland Walk

LINNIE WATT


CHARLES DESIRE HUE


 

summer day_Vladimir Yegorovich Makovsky (russian painter)

VLADIMIR I. MAKOVSKY


NORMAN GARSTIN


Eduardo_Leon_Garrido_elegantes_sous_la_pluie-

EDUARDO LEON GARRIDO


O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.
É um som abstracto e fundo. 
Vem do fim vago do mundo. 
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo. 
Que a virtude não é escudo 
E que o melhor é ser mudo.

Fernando Pessoa


Heinrich Lossow (German, 1843-1897) An afternoon stroll

HEINRICH LOSSOW