Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

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A balada da água do mar

Dubrovnik by Moonlight -1915- Eduard Kasparides (austrian painter)

O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

– Que vendes, ó jovem turva,
com os seios ao ar?

– Vendo, senhor, a água
dos mares.

– Que levas, ó negro jovem,
mesclado com teu sangue?

– Levo, senhor, a água
dos mares.

– Essas lágrimas salobres
de onde vêm, mãe?

– Choro, senhor, a água
dos mares.

– Coração, e esta amargura
séria, onde nasce?

– Amarga muito a água
dos mares!

O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

Federico Garcia Lorca

Pintura: Eduard Kasparides


O poeta…

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Um livro de poemas
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes mete nos peitos
— entranháveis distâncias. —

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchadas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza-mãe
que explica sua grandeza
por meio das palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível,
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.

Sabe ele que as veredas
são todas impossíveis
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Federico Garcia Lorca


A balada da água do mar…

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O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

– Que vendes, ó jovem turva,
com os seios ao ar?

– Vendo, senhor, a água
dos mares.

– Que levas, ó negro jovem,
mesclado com teu sangue?

– Levo, senhor, a água
dos mares.

– Essas lágrimas salobres
de onde vêm, mãe?

– Choro, senhor, a água
dos mares.

– Coração, e esta amargura
séria, onde nasce?

– Amarga muito a água
dos mares!

O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

Federico García Lorca


Canção Outonal

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Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas,

mas minha senda se perde

na alma de névoa.

A luz me quebra as asas

e a dor de minha tristeza

vai molhando as recordações

na fonte da ideia.

Todas as rosas são brancas,

tão brancas como minha pena,

e não são as rosas brancas

porque nevou sobre elas.

Antes tiveram o íris.

Também sobre a alma neva.

A neve da alma tem

copos de beijos e cenas

que se fundiram na sombra

ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,

mas a da alma fica,

e a garra dos anos

faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve

quando a morte nos levar ?

Ou depois haverá outra neve

e outras rosas mais perfeitas ?

Haverá paz entre nós

como Cristo nos ensina ?

Ou nunca será possível

a solução do problema ?

E se o amor nos engana ?

Quem a vida nos alenta

se o crepúsculo nos funde

na verdadeira ciência

do Bem que quiçá não exista,

e do mal que palpita perto ?

Se a esperança se apaga

e a Babel começa,

que tocha iluminará

os caminhos da Terra ?

Se o azul é um sonho,

que será da inocência ?

Que será do coração

se o Amor não tem flechas ?

Se a morte é a morte,

que será dos poetas

e das coisas adormecidas

que já ninguém delas se recorda ?

Oh! sol das esperanças!

Água clara! Lua nova!

Coração dos meninos!

Almas rudes das pedras!

Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas

e todas as coisas são

tão brancas como minha pena.

Federico García Lorca

– retirado do blog: UMBIGODE