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Sugestão de Leitura: De onde vêm as palavras–Deonísio da Silva

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“No começo, era a palavra”, diz o Evangelho de São João. “No fim, a frase”, emendou alguém. Palavras e frases têm suas origens reveladas nesse livro de curiosidades da língua portuguesa de Deonísio da Silva(*). Guerra, por exemplo, vem do alemão werra, “discórdia”, “peleja”. A independência dos Estados Unidos foi obtida em célebre guerra travada pelas 13 colônias contra o Reino Unido, que culminou com a declaração de independência, proclamada em 4 de julho de 1776. Entre 1812 e 1814 o país voltou a enfrentar a ex-metrópole. O primeiro presidente, o general George Washington (1732-1799), foi o comandante-chefe das forças rebeldes. A vocação militar da nova nação pôde ser comprovada nas numerosas guerras que travou desde então.  Um outro George, o Bush filho, ao declarar a guerra disse estar  imbuído das melhores intenções. Como sabemos, “de boas intenções o inferno está cheio”.
Essa frase, esclarece Deonísio em seu livro, é de autoria de um teólogo e santo famoso, o francês São Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloisa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a Segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles que eram considerados hereges por ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados.
Outro exemplo pinçado do livro: elite, do latim electrum,“escolhido”, passando para o francês élite. Designa o grupamento mais distinto de uma determinada sociedade. Frequentemente a elite é identificada por outras metáforas:
nata – alusão, inconsciente talvez, ao poderio do passado pecuário.
Fina flor – referência à agricultura ou à jardinagem. Mas, como lembrou o poeta, às vezes as flores também florescem no brejo, por mais finas que sejam… Por outro lado, a elite brasileira, ao não ouvir os clamores populares, parece “ser surda como uma porta”.
Diz Deonísio que a pesquisa sobre a origem dessa frase toma um caminho que logo se bifurca. Para alguns deve-se a costumes religiosos da Roma Antiga, segundo os quais algumas portas eram consideradas deusas a quem muitas pessoas, especialmente os namorados, faziam suas súplicas. Quando os pedidos eram atendidos, a porta recebia agradecimentos em forma de palavras, abraços, beijos e lágrimas de alegria. Quando, porém, a porta se mostrava surda às solicitações, era ofendida com diversos impropérios que visavam castigar a sua surdez. O costume foi registrado pelo escritor latino Festus, que viveu no século quarto. O filólogo João Ribeiro (1860-1934) tem, porém, outra explicação. Surda era a porta que não abria por ter seus fechos emperrados e, por conseguinte, não emitia som algum.
Bem… espero ter, com esses exemplos, despertado o interesse do gentil leitor para esse livro sobre palavras e frases famosas, comentadas pela verve e humor do autor. As palavras têm mistérios, e desvendá-los é muito prazeroso.

(*) Deonísio da Silva é escritor e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos. Entre seus livros, já publicados também em outros países, estão os romances Avante, soldados; para trás (Prêmio Internacional Casa de las Américas) e Teresa (premiado pela Biblioteca Nacional). Seus livros recentes são o romance Os guerreiros do campo e A vida íntima das palavras.

(Plínio Mendonça)