Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

POESIAS

Poema à boca fechada

Anker_Trinker

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

Pintura: Albert Anker (Suiça, 1831-1910)


A “melhor idade”…

NOSSAS MARCAS NO TEMPO…

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(Passagem das Horas – Poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)

Charles_Spencelayh_A_favouriteOld age, 1883-by-Albert-S-Anker 

CHARLES SPENCELAYH                                                                                  ALBERT ANKER


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JOHN GEORGE BROWN


time for lunch - Victor Gabriel Gilbert

VICTOR GABRIEL GILBERT                                                                               FEDERICO ANDREOTTI


04 eugenio zampighiteasing the kitten_ Joseph Clark

EUGENIO ZAMPIGHI                                                                             JOSEPH CLARK



Eros e Psiquê

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EROS E PSIQUÊ

      Conta à lenda que dormia
      uma princesa encantada
      a quem só despertaria
      um Infante, que viria
      de além do muro da estrada.
      Ele tinha que, tentado
      vencer o mal e o bem
      antes que, já libertado
      deixasse o caminho errado
      por que à Princesa vem.
      A princesa adormecida
      se espera, dormindo espera
      sonha em morte a sua vida
      e orna-lhe a fonte, esquecida
      uma grinalda de hera.
      Longe o Infante, esforçado
      sem saber que intuito tem
      rompe o caminho fadado
      ele dela é ignorado
      ela pra ele é ninguém.
      Mas cada um cumpre o Destino
      ela dormindo encantada
      ele buscando-a sem tino
      pelo processo divino
      que faz existir a estrada.
      E se bem que seja obscuro
      tudo pela estrada afora
      e falso, ele vem seguro
      e, vencendo estrada e muro,
      chega onde, em sono, ela mora.
      E, inda tonto com o que houvera
      à cabeça, em maresia,
      ergue a mão, e encontra a hera
      e vê, que ele mesmo era
      a Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

PINTURA: Guillaume Seignac (França, 1870-1924)


Trio: No meio do caminho…

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THOMAS BROOKS (Inglaterra, 1818-1891)


Stepping Stones, Emile Eisman-Semenowsky

EMILE EISMAN SEMENOWSKY (Pintor franco-polonês – 1857-1911)


très galant - Cesare Auguste Detti

CESARE AUGUSTE DETTI (Itália, 1847-1914)


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade



Colar de pérolas

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COLAR DE PÉROLAS

A Felicidade é um colar de pérolas,
Pérolas caras, de valor pujante,
Belas estrofes de Petrarca e Dante,
Mais cintilantes que as manhãs mais cérulas.

Para que enfim esse colar bendito,
Perdure sempre, inteiramente egrégio,
Como uma tela do pintor Corregio,
Sem resvalar no lodaçal maldito;

Faz-se preciso umas paixões bem retas,
Cheias de uns tons de muito sol – completas…
Faz-se preciso que do amor na febre,

Nos grandes lances de vigor preclaro,
Desse colar esplendoroso e raro,
Nem uma pérola, uma só se quebre!…

Cruz e Souza (1861-1898)

Pintura: William McGregor Paxton (Baltimore, EUA, 1869 – Boston, EUA, 1941)


song without words - John Melhuish Strudwick

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…
Mário Quintana

Pintura: John Melhuish Strudwick


Entre o luar e o arvoredo

Johann Peter hasenclever_Die sentimentale_19 th century

Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

Fernando Pessoa

Pintura: Johann Peter Hasenclever (Alemanha, 1810-1853)


“Dawn”…

EdmundHodgsonSmart_dawn

EDMUND HODGSON SMART (Inglaterra, 1873 – EUA, 1942)


Deve chamar-se tristeza 
Isto que não sei que seja 
Que me inquieta sem surpresa 
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza – mas aquela

Que nasce de conhecer

Que ao longe está uma estrela

E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho. 
Tudo mais é tudo só. 
E eu deixo ir o pó que apanho 
De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa


Temas da Pintura: O beijo

Soneto

Canta teu riso esplêndido sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
– Citara suave dos apaixonados,
Sonorizando os sonhos já passados,
Cantando sempre em trínula volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos,
Quando, úmido de beijos em ressábios
Teu riso esponta, despertando sonhos…

Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!

Augusto dos Anjos

A. Aureli, XIX century, Marguerite and Faust, 1865the kiss_Ferdinand Georg Waldmüller - 1858

A. AURELI                                                                                          FERDINAND GEORG WALDMÜLLER


the-kiss-theodore-jacques-ralli

THEODORE JACQUES RALLI


Leopold Burger (austrian, 1861-1903)_Liebespaar am Wiesenrand (Sommer)

LEOPOLD BURGER


Carolus Duran – Le baiser 1863

CAROLUS-DURAN


JosephNoelPaton_hesperus

JOSEPH NOEL PATON



Entre o luar e o arvoredo

Johann Peter hasenclever_Die sentimentale_19 th century
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

Fernando Pessoa

Pintura: Johann Peter Hasenclever (Alemanha, 1810-1853)


Casa arrumada…

Francis_Coates_Jones_(American_artist,_18571932)_Flowers_in_the_Window

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas,
que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte
e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Francis Coates Jones (EUA, 1857-1932)


Tempos de criança – Galeria 25

Olha-me rindo uma criança

Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca bastou.
Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que e nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.

Fernando Pessoa

Johan 'Mari' Henri ten Kate - 1831 - 1910-drie-kinderen-en-een-hondje-met-een-mutsje-dat-in-het-water-dreef

JOHAN “MARI” HENRI TEN KATE


Arthur John Elsley 1862-1952 Home Team

ARTHUR JOHN ELSLEY


John Wells Smith - PlaytimeFrederick Arthur Bridgman (1847-1928) Playing Pony

JOHN WELLS SMITH                                                                        FREDERICK ARTHUR BRIDGMAN


Giulio del Torre_Playing ChildrenKarlRaupp_feeding_the_ducklings

GIULIO DEL TORRE                                                                                  KARL RAUPP


Anderson_Sophie_the_Bonfire

SOPHIE ANDERSON



Faça chuva ou faça sol… Galeria 29

Paul-Gustave Fischer - After the Swim at Hornbaek Beach, Denmark

PAUL-GUSTAVE FISCHER


LOUIS MARIE DE SCHRYVER


Linnie Watt (1875-1908) - A Woodland Walk

LINNIE WATT


CHARLES DESIRE HUE


 

summer day_Vladimir Yegorovich Makovsky (russian painter)

VLADIMIR I. MAKOVSKY


NORMAN GARSTIN


Eduardo_Leon_Garrido_elegantes_sous_la_pluie-

EDUARDO LEON GARRIDO


O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.
É um som abstracto e fundo. 
Vem do fim vago do mundo. 
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo. 
Que a virtude não é escudo 
E que o melhor é ser mudo.

Fernando Pessoa


Heinrich Lossow (German, 1843-1897) An afternoon stroll

HEINRICH LOSSOW



Para além da curva da estrada…

Peder Mork Monsted_Den Rode Paraplay, 1888
Para além da curva da estrada
talvez haja um poço, e talvez um castelo,
e talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
só olho para a estrada antes da curva,
porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro, em "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa

Pintura: Peder Mork Monsted (Pintor dinamarquês, 1859-1941)


Foi-se a Copa?

copa

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Carlos Drummond de Andrade

Desenho: Regina Mendonça


Espiritualismo

WILLIAM HENRY MARGETSON (english, 1861-1940) ON THE SANDS 

Espiritualismo 
 
Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.

Antero de Quental (Portugal, 1842-1891)

Pintura: William Henry Margetson (Inglaterra, 1861-1940)


Gato que brincas na rua…

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Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes,

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu

Fernando Pessoa

Pintura: “Um momento especial” – Emile Munier (França, 1840-1895) 


Avatar

Immortality (1889)- Henri Jean Théodore Fantin- Latour

AVATAR

Um dia terei a morte aparente que têm todos os seres e todas as coisas.
A minha alma irá para Deus.
Meu coração, separado da sua amiga, irá para o seio da terra,
Para onde vão os corações que as almas deixaram.
Não haverá tristeza na separação…não é triste cumprir-se destino…
Mas um  dia Deus reparará que no mundo, entre as alegrias profundas,
está faltando aquela suave alegria da minha alma e do meu coração.
E mandará minha alma à terra para junto do meu coração.
Meu coração sentirá uma planta qualquer
Sugar o seu húmus, lançar pela terra raízes tenazes…
Contente dará vida a essa planta, porque é destino dos corações
Darem vida às plantas, ao desfazerem-se em adubo da terra.
E perceberá feliz que a minha alma estará florindo na haste da planta,
Tornada em flor extremamente simpática.
A minha alma, abrindo a corola a todo o sol, a todo vento, a todo
dia, e a toda noite, dirá baixinho:
"Coração, como é linda a vida! Como é lindo este Universo de Deus!"
E meu coração, como fazia em meu peito,
Responderá saltando contente no peito da terra…
(Rodrigues de Abreu – 1897-1927)

Pintura: “Imortalidade” – Henry Jean Théodore Fantin-Latour (França, 1836-1904)


Alegre ou triste?

Portrait of a Woman with Black Lace Scarf, Green Coat with White Fur - 1750 - Pietro Antonio Rotari (italian painter)

Se sou alegre ou sou triste?…

Francamente, não o sei.

A tristeza em que consiste?

Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.

Verdade, não sei que sou.

Sou qualquer alma que existe

E sinto o que Deus fadou.

Afinal, alegre ou triste?

Pensar nunca tem bom fim…

Minha tristeza consiste

Em não saber bem de mim…

Mas a alegria é assim…

Fernando Pessoa

Pintura: Pietro Rotari (Itália, 1707 – 1762)

 


A pálida luz da manhã de inverno…

Emile-Eisman-Semenowsky-Winter

A pálida luz da manhã de inverno, 
O cais e a razão 
Não dão mais esperança, nem menos esperança sequer, 
Ao meu coração. 
O que tem que ser 
Será, quer eu queira que seja ou que não. 
No rumor do cais, no bulício do rio 
Na rua a acordar 
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer, 
Para o meu esperar. 
O que tem que não ser 
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.
 

Fernando Pessoa

Pintura: Inverno – Emile Eisman Semenowsky (pintor franco-polonês, 1857-1911)


O gol

                                              gol

                                               A esfera desce

                                               do espaço

                                                      veloz

                                               ele a apara

                                               no peito

                                               e a pára

                                               no ar

                                                      depois

                                               com o joelho

                                               a dispõe a meia altura

                                               onde

                                               iluminada

                                               a esfera

                                                    espera

                                               o chute que

                                               num relâmpago

                                               a dispara

                                                 na direção

                                                 do nosso

                                                 coração.

                                                    (Ferreira Gullar)


Sonhei um sonho…

autumn-thomas-benjamin-kennington-

Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procura um sonho.

Cecília Meirelles

Pintura: “Outono” – Thomas Benjamin Kennington (Inglaterra, 1856-1916)


Dois sonhos

Ralph Hedley - Cat in Cottage Window

O gato dorme a tarde inteira no jardim.

Sonha (?) tigres enviesados a chamá-lo

para a fraternidade no jardim.

Gato sonhando, talvez sonho de homem?

Continua dormindo, enquanto ignoro

a natureza e o limite do seu sonho

e por minha vez

também me sonho (inveja) gato no jardim.

Carlos Drummond de Andrade

Pintura: Ralph Hedley (pintor inglês – 1848-1913)


Divina Música …

DIVINA MÚSICA

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
E do Amor.
Sonho do coração humano,
Fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
E desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
Confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
E dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
Das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
Que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
Fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
Depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
E a ouvir com os corações.

(Gibran Khalil Gibran)

Charles Fairfax Murray - The Concert

CHARLES FAIRFAX MURRAY


Theodore Clement Steele - Girl at the piano - The Piano (1893)Mathilde-Dietrichson-women-in-the-music-room

THEODORE CLEMENT STEELE                                                            MATHILDE DIETRICHSON


Caillebotte-Gustave-Young-Man-Playing-the-Piano

GUSTAVE CAILLEBOTTE


Arthur Trevor Haddon (British, 1864-1941) - An elegant interior

ARTHUR TREVOR HADDON


Home, Sweet Home-George Dunlop Leslie

GEORGE DUNLOP LESLIE


Lesrel_Adolphe_Alexandre_Interior_with_Troubadours_1899

ADOLPHE ALEXANDRE LESREL


Raimundo de Madrazo y Garreta - The Music Lesson

RAIMUNDO DE MADRAZO Y GARRETA