Revista Virtual de Artes, com ênfase na pintura do século XIX

Canção Outonal

foto-14

Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas,

mas minha senda se perde

na alma de névoa.

A luz me quebra as asas

e a dor de minha tristeza

vai molhando as recordações

na fonte da ideia.

Todas as rosas são brancas,

tão brancas como minha pena,

e não são as rosas brancas

porque nevou sobre elas.

Antes tiveram o íris.

Também sobre a alma neva.

A neve da alma tem

copos de beijos e cenas

que se fundiram na sombra

ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,

mas a da alma fica,

e a garra dos anos

faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve

quando a morte nos levar ?

Ou depois haverá outra neve

e outras rosas mais perfeitas ?

Haverá paz entre nós

como Cristo nos ensina ?

Ou nunca será possível

a solução do problema ?

E se o amor nos engana ?

Quem a vida nos alenta

se o crepúsculo nos funde

na verdadeira ciência

do Bem que quiçá não exista,

e do mal que palpita perto ?

Se a esperança se apaga

e a Babel começa,

que tocha iluminará

os caminhos da Terra ?

Se o azul é um sonho,

que será da inocência ?

Que será do coração

se o Amor não tem flechas ?

Se a morte é a morte,

que será dos poetas

e das coisas adormecidas

que já ninguém delas se recorda ?

Oh! sol das esperanças!

Água clara! Lua nova!

Coração dos meninos!

Almas rudes das pedras!

Hoje sinto no coração

um vago tremor de estrelas

e todas as coisas são

tão brancas como minha pena.

Federico García Lorca

– retirado do blog: UMBIGODE

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